quarta-feira, 15 de junho de 2011

MANIFESTO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL CONTRA A LEI DA HOMOFOBIA

Numa época em que tantas denominações presbiterianas ao redor do mundo têm se rendido à pressão da causa gay e se manifestado favoráveis à união entre pessoas do mesmo sexo e, inclusive, ordenação de pastores e oficiais homossexuais; e ainda, num tempo em que tanto se tem debatido a respeito da chamada Lei da Homofobia, vale à pena relembrar o posicionamento da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) quanto a esta questão.

A IPB tem assumido uma postura decisiva na defesa dos valores bíblicos e constitucionais, declarando-se contrária à interferência do Estado nas matérias de fé e denunciando o pecado como as Escrituras determinam. Vale ainda ressaltar que a IPB não tem qualquer vínculo com as denominações presbiterianas ao redor do mundo que têm assumido defesa da homossexualidade como prática aceitável e, ainda, admitido em seus quadros de obreiros pessoas assumidamente homossexuais.

No ano de 2007, o Rev. Roberto Brasileiro da Silva, presidente do Supremo Concílio da IPB publicou um Manifesto da igreja contra dois pecados em vias de institucionalização no Brasil: a prática do aborto e a criminalização da homofobia. A seguir um extrato desse manifesto da IPB a respeito da chamada Lei da homofobia:

A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, diante do momento atual em que as forças organizadas da sociedade manifestam sua preocupação com a possibilidade da aprovação de leis que venham labutar contra a santidade da vida e a cercear a liberdade constitucional de expressão das igrejas brasileiras de todas as orientações, vem a público MANIFESTAR quanto à prática do aborto e a criminalização da homofobia:

Quanto à chamada LEI DA HOMOFOBIA, que parte do princípio que toda manifestação contrária ao homossexualidade é homofóbica, e caracteriza como crime essas manifestações, a Igreja Presbiteriana do Brasil repudia a caracterização da expressão do ensino bíblico sobre o homossexualidade como sendo homofobia, ao mesmo tempo em que repudia qualquer forma de violência contra o ser humano criado à imagem de Deus, o que inclui homossexuais e quaisquer outros cidadãos.

Visto que: (1) a promulgação da nossa Carta Magna em 1988 já previa direitos e garantias individuais para todos os cidadãos brasileiros; (2) as medidas legais que surgiram visando beneficiar homossexuais, como o reconhecimento da sua união estável, a adoção por homossexuais, o direito patrimonial e a previsão de benefícios por parte do INSS foram tomadas buscando resolver casos concretos sem, contudo, observar o interesse público, o bem comum e a legislação pátria vigente; (3) a liberdade religiosa assegura a todo cidadão brasileiro a exposição de sua fé sem a interferência do Estado, sendo a este vedada a interferência nas formas de culto, na subvenção de quaisquer cultos e ainda na própria opção pela inexistência de fé e culto; (4) a liberdade de expressão, como direito individual e coletivo, corrobora com a mãe das liberdades, a liberdade de consciência, mantendo o Estado eqüidistante das manifestações cúlticas em todas as culturas e expressões religiosas do nosso País; (5) as Escrituras Sagradas, sobre as quais a Igreja Presbiteriana do Brasil firma suas crenças e práticas, ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com propósitos heterossexuais específicos que envolvem o casamento, a unidade sexual e a procriação; e que Jesus Cristo ratificou esse entendimento ao dizer, “. . . desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Marcos 10.6); e que os apóstolos de Cristo entendiam quea prática homossexual era pecaminosa e contrária aos planos originais de Deus (Romanos 1.24-27; 1Coríntios 6:9-11).

Ante ao exposto, por sua doutrina, regra de fé e prática, a Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada lei da homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualidade não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna e pela Declaração Universal de Direitos Humanos; e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.

Portanto, a Igreja Presbiteriana do Brasil não pode abrir mão do seu legítimo direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo.

Rev. Roberto Brasileiro

Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil

segunda-feira, 6 de junho de 2011

UM CENTENÁRIO PARA SER ESQUECIDO (?)

A Igreja Evangélica Assembléia de Deus sempre foi um referencial do movimento pentecostal brasileiro. Ao longo da história a denominação tornou-se protagonista do avanço missionário e um identificador de fervor evangelístico. Por quase todas as cidades que se percorria havia uma igreja Assembléia de Deus. Lugarejos inalcançados pelos protestantes históricos abrigavam comunidades pujantes de assembleianos entusiasmados e inflamados com a típica efervescência pentecostal.

A história das Assembléias de Deus no Brasil, como todos sabem, iniciou-se com a chegada dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg a Belém do Pará em 1910. Dali espalhou pelo país, tornando-se uma das maiores denomianções evangélicas do mundo.

A característica e a dinâmica do movimento pentecostal fizeram da Assembléia de Deus uma denominação ímpar, mas também lhe trouxeram alguns prejuízos históricos.

Por muito tempo a Assembléia de Deus foi uma denominação tipicamente antiintelectual. Seus pastores e obreiros se orgulhavam de nunca terem passado por um seminário teológico, afirmando que o pregador do evangelho precisava apenas da Bíblia e da “unção” do Espírito, e não de um diploma para cumprir o “Ide” de Jesus. Seus membros sempre confiaram que o tal “batismo do Espírito Santo” (e suas manifestações excêntricas) seria suficiente para garantir plenitude e firmeza espiritual. Com o tempo, o discurso assembleiano passou a ser uma antítese do protestantismo histórico, e não demorou muito para a Assembléia de Deus ser contaminada pelo vírus perigoso da superioridade espiritual. O “batismo nas águas” passou a ser considerado superior ao batismo por aspersão; o seu “falar em línguas” passou a ser regra e critério fundamental e absoluto de conversão e de espiritualidade; em muitos lugares, a Assembléia de Deus tornou-se rival de outras denominações protestantes, onde líderes trabalhavam incessantemente a fim de tirar crentes de outras igrejas alertando contra o que passaram a chamar de “tradicionalismo”. Assim “tradicional” e “renovado” passaram a ser extremos intocáveis da fé evangélica, contaminando a maneira de ser e pensar de muitos crentes até os dias de hoje.

Não há como duvidar da importância da Assembléia de Deus para o universo evangélico brasileiro. Não há como negar seu valor e influência positiva em muitos aspectos. Mas não se pode também negar que em sua trajetória centenária, a Assembléia de Deus rechaçou muitos ideais fundamentais do movimento reformado e ainda perdeu os rumos de sua rota original, razão por que se encontra numa forte turbulência nesses tempos de comemoração de seu Centenário.

O ano 2011 marca o Centenário da Assembléia de Deus no Brasil. Mas ao invés de uma denominação jubilosa, unida em festa, o que se vê de fora é uma igreja dividida, sulcada por egos inflamados em busca do poder denominacional, ao revés da história e das almas que a fizeram e ainda fazem. Confesso que nada foi mais triste do que assistir recentemente pela televisão a disputa entre facções da denominação pelo controle de uma igreja em São José dos Campos, e a exposição vexatória e constrangedora de disputas judiciais e suas razões em rede nacional, contrapondo ao bom senso e exiguidade recomendados pelas Escrituras aos servos de Deus em litígios pessoais. Até os não-assembleianos, como eu, lamentam que a festa do Centenário das Assembléias de Deus ocorra sob um flagrante racha, que coloca em risco o futuro da denominação.

O tão aguardado Centenário da Assembléia de Deus no Brasil corre o risco de entrar para a história como uma data a ser esquecida. Que as lideranças assembleianas resgatem os princípios que inflamaram os pioneiros missionários e provem que o fogo que arde nos corações assembleianos em seu centenário é o mesmo da “fogueira divina”, descrita por Emílio Conde em seu livro “História das Assembléias de Deus no Brasil” e não um fogo estranho provindo da “Fogueira das Vaidades” de Tom Wolfe. O tempo dirá.

Agnaldo Silva Mariano

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A IMPRENSA BRASILEIRA A SERVIÇO DA CAUSA GAY

"Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação. Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas; II - a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público; III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão; IV - a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, deve ser considerada uma obrigação social; V - a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante. Capítulo II - Da conduta profissional do jornalista. Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética. Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação. Art. 6º É dever do jornalista: I - opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; II - divulgar os fatos e as informações de interesse público; III - lutar pela liberdade de pensamento e de expressão".

O texto acima faz parte do Código de Ética dos jornalistas brasileiros, um documento que está em vigor desde 1987 e que serve para fixar “as normas a que deverá subordinar-se a atuação do profissional, nas suas relações com a comunidade, com as fontes de informação, e entre jornalistas”, e se refere à conduta que se espera dos profissionais da área.

Uma imprensa isenta é o sonho de qualquer sociedade, a fim de se conhecer a verdade e de se formar uma opinião própria sobre os acontecimentos à sua volta. Infelizmente, em certos casos, jornalismo e manipulação têm caminhado de mãos dadas, quando determinados interesses estão em jogo, contrariando completamente o Código de Ética da profissão. É o que se pôde observar nesta semana no Brasil.

Na quarta-feira, 01 de junho, uma multidão de mais de trinta mil pessoas foi a Brasília, capital Federal, para protestar contra a aprovação de leis que criminalizam a chamada “homofobia”. A manifestação contou com representantes de igrejas evangélicas e católicas que buscavam pressionar as autoridades a não aprovar o Projeto de Lei Complementar 122/2006 que torna crime qualquer manifestação contrária à prática homossexual no país, sujeitando os críticos dessa prática, inclusive, a penas de reclusão.

O dito Projeto de Lei é um assalto à democracia e à liberdade de expressão, além de uma afronta à Constituição Federal. Reclamar contra a sua aprovação é um dever, não só dos movimentos religiosos, mas de todos os cidadãos brasileiros, que podem ser tolhidos do bem mais precioso da democracia que é a liberdade.

Pois bem, a manifestação ocorreu conforme planejada. Eu não estava lá, mas creio que foi um grande marco nessa luta contra a aprovação de um Projeto de Lei descaradamente inconstitucional. Mas a tristeza que senti foi que, ao procurar nos principais sites de notícias do país, informações sobre o evento, não encontrei praticamente nada, quase nenhuma cobertura da mídia sobre o evento.
O Jornal Nacional da Rede Globo divulgou uma pequena reportagem de pouco mais de 2min30seg. Mesmo assim, ocupou boa parte da reportagem com informações sobre o que prevê o PLC-122/2006, e deu considerável espaço para uma declaração do deputado federal Jean Wyllys, homossexual e grande defensor da causa gay no país. A Band dedicou míseros 49 segundos de um de seus telejornais para falar sobre o evento, tratado como uma manifestação meramente religiosa, desconsiderando completamente o aspecto político-social do evento.

Aquela não foi apenas uma passeata religiosa. Foi um movimento em defesa da Constituição, da liberdade e dos rumos da própria sociedade brasileira. Não se tratava apenas de uma defesa de padrões religiosos, mas de se abrir os olhos das autoridades para o respeito à Carta Magna e aos direitos fundamentais da democracia nacional.

Nos principais sites de notícias do país a manifestação não recebeu nenhuma cobertura. Globo.com, G1, UOL, IG, Terra, Folha.com, O Globo não publicaram absolutamente nada a respeito da passeata. Nem mesmo o R7.com, portal de noticias da Rede Record, emissora ligada à Igreja Universal fez qualquer menção da manifestação. Todos esses veículos de informação preferiram silenciar sobre o assunto, e gastar tempo com trivialidades e futilidades. Além de coincidirem em notícias sobre o assassinato de um ex-participante de reality show, a convocação de Palocci para dar explicações na Câmara Federal e sobre o futebol, as notícias variavam do inútil ao sem importância nenhuma. Bife seco e duro? Veja como resolver erros comuns na cozinha”, era uma das matérias do Terra; Sombra marrom é a grande dica para uma maquiagem chique; veja passo a passo”, anunciava o Globo.com. O UOL dedicou tempo para noticiar que Valeska Popozuda será uma das participantes de ‘A Fazenda 4’". O portal IG dedicou um longo espaço para ensinar “Como preparar e oferecer a papinha para o bebê corretamente”. No R7.com, portal ligado à Rede Record, uma das notícias era que Fiuk divulga vídeo de Sou Eu e diz que está louco para lançar CD. Como se vê, a grande imprensa nacional está mesmo interessada é naquilo que não faz ninguém pensar.

É uma vergonha a maneira como a imprensa brasileira se comporta diante de um tema tão sério. Há uma declarada manifestação da imprensa a favor da causa gay. Não há isenção nas informações. Marcelo Salles escreveu no site Observatório da Imprensa no ano 2007 que “Jornalista tem lado”, afirmando que a imparcialidade jornalística é uma falácia. Guilherme Scalzilli, escrevendo no mesmo site em 2006 disse que “Já não persistem dúvidas de que a imprensa brasileira vive uma crise inédita de credibilidade”. E esta crise fica nitidamente estampada neste episódio em particular.

Não há como confiar em uma imprensa que está a serviço de uma minoria da sociedade, como se suas reivindicações fossem absolutas e inquestionáveis. Não há como aceitar que a imprensa se curve com tamanha submissão à causa gay e não dê aos críticos do comportamento homossexual o mesmo espaço para exposição de suas idéias. Por que quando se trata de manifestações em favor da causa gay há intensa cobertura da imprensa como se isto interessasse a toda a sociedade mais do que a crítica a esse comportamento? Por que a imprensa deu ampla cobertura quando míseros 150 ativistas gays que promoveram um ato desrespeitoso na escadaria de uma Igreja Católica em Florianópolis, e vergonhosa e covardemente, ignorou o protesto de mais de trinta mil pessoas na capital do país em defesa da liberdade e do direito? Por que a notícia de que um marmanjo homossexual chamado Leonardo (vulgo Léa T) desfilando de biquini em um evento de moda do Rio de Janeiro chama mais atenção da imprensa do que 30 mil vozes pedindo respeito à Constituição Federal e à liberdade de expressão? Por quanto será que a imprensa brasileira se vendeu a esta causa gay?

Pelo visto, as palavras do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros são só um enfeite hipócrita para uma classe subalternizada aos interesses de quem paga mais ou de quem não quer levar a sociedade a pensar. A imprensa brasileira está a serviço da mentira, do engodo e da manipulação. Confesso que sempre admirei o Jornalismo, não apenas como profissão, mas também como missão. Não sou jornalista, mas se pudesse escolher, seria uma das minhas profissões. Mas sinto profunda alegria neste momento por não fazer parte de uma categoria tão comprometida com a parcialidade, com a hipocrisia e com a manipulação, como se vê em nossos dias. Que as exceções se manifestem, se é que elas existem.

Agnaldo Silva Mariano

quarta-feira, 25 de maio de 2011

JÁ NÃO SE FAZEM PASTORES COMO ANTIGAMENTE

Li na internet uma notícia que me chamou a atenção no início da semana. Um pastor foi baleado na porta da sua igreja no último dia 22 de maio, na cidade de Timóteo, no Vale do Aço, interior de Minas Gerais. Fiquei questionando se a tentativa de assassinato seria algum tipo de perseguição por causa da pregação do pastor, ou apenas mais um caso de violência gratuita que não respeita mais ninguém, ou, ainda, algum tipo de engano por parte dos criminosos. De qualquer modo, a notícia de um pastor ter sido baleado na porta da igreja ao final do culto convenhamos, não é algo muito comum, nem, tampouco, agradável de se ler ou de se ouvir.

Houve um tempo em que ser pastor era motivo de orgulho e sinônimo de prestígio. Nesse tempo distante, as diversas igrejas existentes nas pequenas comunidades rurais preparavam-se com grande expectativa e júbilo para a passagem do pastor pelos lugarejos, a fim de pregar seus sermões, batizar os crentes e ministrar a Santa Ceia. Pastor, naqueles tempos, era coisa rara. Havia menos pastores do que igrejas. Cada pastor precisava dividir seu tempo entre, até, seis igrejas ou mais, viajando a cavalo ou a pé para atender os crentes e cumprir sua missão.

As pequenas comunidades paravam para assistir aos sermões do pastor e ouvir seus conselhos. Nas casas mais abastadas havia sempre um quarto reservado para o pastor. A porta mantinha-se rigorosamente trancada, a cama intocada e os objetos intactos. Aquele quarto era só para o pastor, considerado pela família a visita mais ilustre entre muitas outras. Para a família era um grato privilégio hospedar o servo do Senhor. Ninguém ousava recusar esse privilégio.

Vale ressaltar que os pastores daquela época não precisavam discursar nos púlpitos em favor desses privilégios. Eles não precisavam constranger a igreja reafirmando sua posição e exigindo honra e respeito. Eles, por si mesmos, eram honrados e respeitáveis. Por considerarem o ofício pastoral um dos mais nobres entre outros ofícios, portavam-se com dignidade diante da nobreza do ministério. Recebiam respeito por serem respeitáveis; recebiam honra, porque eram honrados; recebiam privilégios porque eram dignos deles.

Os tempos passaram e muita coisa mudou. Hoje há mais pastores do que igrejas. Nas casas de muitos crentes não há espaço para se reservar um quarto só para o pastor. Muitos pastores não andam mais a pé, muito menos a cavalo. As comunidades não esperam mais com tanta ansiedade a passagem dos pastores. Aliás, em muitas delas, os pastores sequer são bem-vindos.

É bem verdade que já não se fazem mais crentes como antigamente. Mas, ouso dizer que a razão principal para a mudança do comportamento das pessoas para com os ministros é que já não se fazem mais pastores como antigamente.

Naquele tempo remoto, o pastor era tido como homem de palavra, varão honrado e digno de respeito. A palavra do pastor era respaldada e avalizada pelo seu caráter e moral ilibada. Havia pastores menos respeitáveis? Com certeza. Mas isto era a exceção. Hoje virou quase a regra.

O crescimento desenfreado de denominações evangélicas tem sido um fator responsável pelo estabelecimento dessa regra lamentável. Hoje em dia qualquer um pode ser pastor ou se dizer pastor. Principalmente naquelas igrejas independentes que surgem em cada esquina, onde um sujeito qualquer (qualquer mesmo!) coloca um terno e uma gravata, coloca-se atrás de uma tribuna com um microfone na mão e se auto-ordena “ministro do evangelho”. E essa anomalia gera pastores de todo tipo e contribui para o desprestígio da classe.

Entretanto, a responsabilidade não é apenas das igrejas independentes. Ela também deve ser dividida por alguns pastores de igrejas históricas que usam títulos e diplomas para esconder pecados horrendos e corrupções diversas.

Para falar a verdade, ser pastor hoje é motivo de pouco orgulho e sinônimo quase nenhum de prestígio. Pastor, para muitos, é sinônimo de caloteiro, mal pagador, explorador e outros adjetivos pouco louváveis. Há exceções? Claro que há, mas elas não têm conseguido mudar o quadro. Até porque, os bons pastores não aparecem na mídia, não ocupam os noticiários nem alardeiam aos quatro ventos a sua excelência (se o fizessem, claro, perderiam tal excelência, porque um dos princípios básicos dessa excelência é a discrição e a humildade).

O certo é que a igreja precisa de pastores dignos de honra e respeito, e a classe pastoral precisa resgatar essas qualidades. Aliás, a sociedade precisa ver os pastores como homens dignos, corretos, respeitáveis e excelentes. Creio que isto deve começar pelos próprios pastores. Eu sou pastor, felizmente. Sei que não tenho todas as características que se espera de um pastor excelente, ou daqueles nobres pastores de antigamente. Mas espero nunca estampar os noticiários como um mau exemplo. Para isto conto sempre com a misericórdia de Deus em meu favor.

A propósito, de acordo com parentes, o tal pastor de Timóteo já vinha sofrendo ameaças de morte há algum tempo. O motivo das ameaças e dos tiros? Dívidas. É, realmente, já não se fazem mais pastores como antigamente.

Agnaldo Silva Mariano

terça-feira, 3 de maio de 2011

O PATRIOTISMO GLOBALIZADO

Barack Obama anunciou extasiado: “A justiça foi feita”. Referia-se à morte de Osama Bin Laden, líder da organização terrorista Al-Qaeda, responsável pelos atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. O homem mais procurado pelos Estados Unidos foi morto em uma ação militar no Paquistão, no último dia 02 de maio de 2011. Bastou o anúncio do presidente para que os americanos inflassem seu ego patriota e saíssem às ruas empunhando bandeiras e aos gritos de “U.S.A...U.S.A”.

A euforia americana fez lembrar os nossos festejos quando a seleção tupiniquim conquistou seus títulos mundiais de futebol. Pessoas alegres, vestindo roupas com as cores nacionais, cantando o hino do país e bradando o nome da nação. Os americanos também sabem comemorar conquistas esportivas. Especialmente nos dias do Super Bowl, a grande final do campeonato de futebol daquele país. Mas a verdade é que não é preciso muita coisa para que os americanos exalem seu patriotismo. Nós brasileiros temos menos vocação patriota; mas os americanos fazem questão de expressar seu orgulho nacional sempre que podem; ou sempre que querem.

Quiseram os americanos expressar o seu patriotismo no dia 02 de maio em razão de uma morte. É claro que não foi a morte de um homem qualquer. Foi a morte do homem que liderou os ataques responsáveis pela perda de mais de três mil americanos há dez anos atrás. Era o criminoso mais odiado pela nação. Era um terrorista, um delinqüente, um assassino. Mas o sentimento de orgulho nacional americano expõe algumas agruras lamentáveis e nos leva a algumas reflexões sobre o perigo do patriotismo globalizado.

O povo americano tem todo o direito de sentir-se aliviado com a morte de um inimigo da nação. Mas a comemoração nas ruas demonstra um sentimento vingativo tão ruim quanto o que outras nações demonstram em relação à sua nação. O ódio anti-americano existente em muitas nações é um dos piores sentimentos possíveis na civilização contemporânea. E os americanos conseguiram copiar o que mais lhes dói. Conseguiram tripudiar sobre a morte de um inimigo como muitos inimigos fazem quando matam seus soldados. É pedir muito que os americanos amem seus inimigos? Sinceramente, não sei; mas é preciso questionar se esse tipo de comemoração é ética ou justa. É preciso, ainda, questionar, se a justiça se faz dessa maneira. Aliás, quem instituiu o governo americano como o guardião da justiça mundial? Quem conferiu aos Estados Unidos o direito de invadir qualquer nação do mundo e matar seus desafetos? Isto vale para qualquer nação? Qual é o padrão de justiça no qual Barack Obama se inspirou ao dizer que “a justiça foi feita”?

Não quero aqui inocentar Bin Laden nem condenar Barack Obama. Quero apenas questionar esse senhorio americano sobre o mundo e seu direito de invadir nações à procura de estabelecer o seu ideal próprio de justiça. Foi com esse sentimento que os americanos sentiram-se autorizados a invadir o Iraque e provocar uma desordem até hoje não resolvida.

Um dos efeitos perigosos da comemoração desta investida dos Estados Unidos contra Osama Bin Laden é a globalização do patriotismo americano. Saindo às ruas com tamanha euforia os americanos conseguiram fazer com que o mundo inteiro ficasse do seu lado. De repente todos se sentiram um pouco americanos, um pouco vingados e um pouco orgulhosos também. O patriotismo americano, então, se transformou num patriotismo global, e as causas americanas passaram a ser as causas de todo o mundo. A noção de justiça dos americanos passou a inspirar outras nações. E Barack Obama é, então, o novo herói mundial.

Osama Bin Laden pagou por seus erros, em vida, na morte e continuará pagando após a morte se não se arrependeu deles. Mas será que os americanos não precisam também enxergar seus crimes e erros contra outras nações? Será que há tanto o que comemorar? Tomara que o mundo enxergue que o patriotismo americano demonstrado nas ruas após a morte de Osama Bin Laden não é um padrão a ser copiado. Tomara que as nações entendam que, melhor do que sair às ruas para comemorar a morte de um inimigo é não criar inimigos. Tomara que as nações entendam que não se faz justiça com vingança; nem se alcança paz com ódio. Tomara que os próprios americanos entendam que a “grandeza do país e a determinação do povo americano”, aclamadas por Bacak Obama em seu discurso, foram construídas sob princípios muito mais nobres e eloqüentes do que o ódio e a vingança. Creio que os fundadores da nação americana ficariam envergonhados da celebração de um patriotismo tão sangrento.

Agnaldo Silva Mariano