quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A PROPAGANDA ENGANOSA DO FALSO EVANGELHO

Um jovem indiano de 26 anos resolveu processar a empresa Unilever, fabricante dos famosos desodorantes Axe. O rapaz usou durante vários anos o desodorante à espera do tal “efeito Axe”. De acordo com a propaganda do produto, a sua utilização atrairia várias mulheres. Vaibhav Bedi não conseguiu o resultado anunciado e resolveu entrar na justiça, pedindo uma indenização de 26 mil libras (mais de 60 mil reais) por danos psicológicos causados no período em que ele utilizou o produto sem perceber nenhum efeito anunciado pela propaganda.

Propaganda enganosa é crime. De acordo com o Código de Defesa do Consumidor quem divulga qualquer informação total ou parcialmente falsa induzindo o consumidor a algum erro de julgamento comete infração sujeita a pena de um a três anos de detenção.

Fico pensando se essa regra valesse para a propaganda do falso evangelho que se prega hoje em dia. Muitas pessoas estão sendo enganadas pela pregação de um falso evangelho que promete uma vida sem problemas na terra, sem doenças e sem dificuldades financeiras. Esse falso evangelho não leva em consideração as palavras de Jesus de que no mundo passaríamos por aflições, nem mesmo a história dos apóstolos e sua pregação de que a normalidade da vida muitas vezes nos impõe dificuldades e tormentos inescapáveis. A pregação do falso evangelho promete o que não pode cumprir e garante o que Deus não prometeu para esta vida terrena.

A propaganda enganosa do falso evangelho deve ser rebatida com a proclamação do verdadeiro evangelho que promete vida abundante, provisão e paz verdadeira; mas convive com a normalidade da vida sem desespero, e busca do alto o bem e a superação das dificuldades com fé e esperança na soberania do Deus que faz com que todas as coisas cooperem para o bem de quem o ama e é chamado pelo seu nome.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

COM QUANTOS “ISMOS” SE FAZ UMA DEMAGOGIA

A demagogia sempre esteve presente na história. Os demagogos são figuras características dos sistemas políticos. Eles surgem em meio às incertezas como porta-vozes da esperança, os libertadores, salvadores da pátria. Na história do nosso país não faltam personagens assim. Seja nos sertões ou nas grandes urbes, seja construindo pontes sobre córregos vazios ou cidades no meio do nada, os demagogos sempre estiveram em cena. Mas a verdade é que, nunca na história deste país, a demagogia fez tanto sucesso e alcançou índices tão exuberantes de popularidade como nestes tempos de lulismo no poder.

O lulismo era um sonho; o sonho virou presidente, e o presidente quer virar mito com o lançamento do filme “O Filho do Brasil”. A demagogia precisa do elemento mitológico para sobreviver. É este elemento que cria o fascínio e sustenta a crença nas suas imponderáveis alegações. Ninguém se iludiria com uma demagogia se por trás dela não houvesse um mito amparando as teses e lhe dando um aspecto de plausibilidade.

Os mitos que sustentam as demagogias são, em geral, aparentemente, humildes e simplórios. Mas na realidade são vaidosos e egocêntricos. O lulismo é assim; na aparência é humilde como um simples filho do Brasil. No entanto, a realidade é outra. O lulismo não se vê apenas como “UM” filho do Brasil; ele quer ser “O” filho. O lulismo se vê como o modelo de filho da pátria, o grande exemplo, o maior referencial, o primogênito da nação. Nada poderia ser mais narcisista.

Na realidade o narcisismo lulista não está satisfeito em ser apenas um simples “Filho do Brasil”. O lulismo quer ser o “Pai da Pátria”; ele se comporta como o Salvador da nação. O lulismo quer passar para a história como aquele que verdadeiramente descobriu o Brasil. O lulismo pode até reconhecer que não inventou a roda, mas, seguramente, acredita que foi ele quem descobriu a sua utilidade.

O lulismo é também egocêntrico, não vê nada além de si mesmo. Seu egocentrismo permite declarações auto-intituladas de ser o melhor em tudo. Um tipo perigoso de ufanismo que lhe assegura imunidade irrestrita a fim de justificar quaisquer de seus atos, inclusive os mais suspeitos. O ufanismo lulista não respeita regras, porque faz as suas próprias em benefício do seu próprio idealismo. Idealismo este que faz a nação aproximar-se perigosamente de tantos “ismos” inconseqüentes, como o castrismo cubano, o chavismo venezuelano, o terrorismo iraniano ou até mesmo acolher o anti-democratismo zelaysta, sem dar à nação o direito de opinar se quer ou não fazer parte dessa confraria de “ismos” avessa às liberdades e direitos próprios da democracia.

O lulismo é pateticamente cínico. Finge não saber o que todos sabem e muitos provam. Ninguém esqueça que o cinismo lulista negou com absurda soberba o inegável fato do mensalão e seus dólares escondidos até em partes íntimas de alguns de seus pares.

O lulismo é fruto do malfadado socialismo, aquela utopia que já morreu há muito tempo, e muitos não querem sepultar. Infiltrou-se na vida pública através do atalho do sindicalismo, e fez deste viés um chamariz para o messianismo que o transformou em herói nacional e o colocou nos braços do povo. O populismo é a arma da demagogia lulista, é o seu maior trunfo. Inflamar as massas com discursos carregados de erros de português e até palavrões faz parte da cartilha demagógica lulista, um truque para não cair na malha fina do bom senso.

O nacionalismo é pródigo em criar os pseudo-messias, os impecáveis heróis defensores dos desfavorecidos. Puro sentimentalismo inconseqüente. O sentimentalismo lulista ignora os seus próprios pecados, transformando acusações de crimes em perseguições maldosas. A demagogia lulista não aceita oposições. O lulismo sempre é a vítima quando se trata dos seus próprios erros e dos seus capangas; mas sempre o herói, o descobridor, mesmo com os acertos dos outros.

O ignorantismo lulista age contra a liberdade de imprensa. Ela é sempre uma ameaça, uma pedra no caminho do seu pragmatismo messiânico. Pragmatismo este que combina esmola e cotas raciais, transformando o assistencialismo numa arma de manipulação de quem acredita que o Estado é servo do seu chefe e dependente dele. Há que se ressaltar que numa democracia o Estado nunca poderá ser menor do que quem o comanda. Assim sofreram tantas civilizações (e ainda sofrem outras) dominadas pelo despotismo que viu no totalitarismo uma medida de segurança contra o prejuízo nacional. Mas a história tem provado que o maior prejuízo para uma nação é o oportunismo de quem se julga insubstituível e deflagra uma guerra contra a sanidade do povo ao pensar por ele em beneficio do idealismo daqueles que não querem deixar o poder. É o que o lulismo faz ao determinar por si e para si quem é melhor para Brasil, sem dar ao país a chance de comparar e escolher com base na realidade, não em um realismo inventado por agências de marketing.

O maior ideário do lulismo é, talvez, o mais perigoso entre todos os outros "ismos": o continuísmo. Esta, sim, é uma arma capaz de destruir as esperanças. Se, conforme alegado, a esperança havia vencido o medo quando o lulismo chegou ao poder, hoje a demagogia tem vencido a esperança, tentando impor à nação a sua perpetuação. O continuísmo lulista é planejado no ilusionismo que tenta criar uma imagem messiânica numa candidata sem expressão, sem projeto e sem graça. É ainda engendrado no sincretismo que aliançou, sem pudores, o lulismo ao velho brizolismo, ao nada ético sarneismo e, se pudesse aliançaria até Jesus a Judas.

A demagogia lulista acredita piamente no estabelecimento de uma nova ordem mundial, na qual o lulismo está no centro. De repente o mundo passou a girar em torno do lulismo, e sem ele, nada do que foi feito se fez. Essa demagogia quer fazer o povo pensar que o lulismo é indispensável à nação pelos próximos séculos.

É bem verdade que as demagogias sempre fizeram parte da história, mas a historia já superou muitas delas. O lulismo é só mais uma demagogia. E que a história nos prove mais uma vez que, de tempos em tempos, o povo se enfada e volta a ter uma nova esperança.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

QUE PROBLEMA HÁ SE AS IGREJAS EVANGÉLICAS CANTAREM MÚSICAS CATÓLICAS?

Escrevi recentemente um texto neste blog no qual expus minha opinião contrária quanto à aproximação do cantor André Valadão com a banda católica Rosa de Saron. Embora haja quem considere aquela situação uma grande dádiva de unidade, tenho muitas razões para continuar afirmando que aquela estratégia não passa de ecumenismo barato que em nada contribui para o Evangelho. Mas o tema da aproximação entre católicos e evangélicos em relação à música é recorrente, e parece tornar-se cada vez mais provocante.

Os católicos, assim como os evangélicos, sempre cantaram. Nunca houve um período em que o catolicismo não se utilizasse da música como instrumento de proclamação da sua fé. O que ocorre é que, com o fortalecimento do movimento de renovação carismática ocorrido no Catolicismo após o Concílio Vaticano II, inaugurou-se uma nova fase da música católica. A chamada “música católica popular”, surgida por volta da década de 60, veio como uma espécie de defesa, e, ao mesmo tempo, de “contra-ataque” do catolicismo contra a força protestante na utilização do recurso musical como meio de propagação de sua mensagem. Deste período vem a utilização de instrumentos populares e de uma linguagem mais acessível e emotiva nas canções, limitando o uso da formalidade, não só dos instrumentos clássicos, mas também do palavreado tradicional.

Um dos precursores desse movimento foi o Padre Zezinho, que por um longo tempo foi o único cantor de grande expressão no catolicismo. Na década de 80 o avanço de uma musicalidade mais popular dentro do Catolicismo deu-se, principalmente, através da Comunidade Canção Nova, que passou a produzir suas próprias canções e a inserir, no repertório católico, músicas produzidas e cantadas pelos evangélicos.

A grande revolução da música católica popular ocorreu em meados da década de 90, com o surgimento da banda Vida Reluz, da Banda Canção Nova e o grande crescimento de gravações musicais de padres populares como Marcelo Rossi e Antônio Maria. Hoje destacam-se nomes na música católica como Dunga, da Comunidade Canção Nova, Anjos de Resgate, Padre Fábio de Melo e Rosa de Saróm, entre outros.

As músicas produzidas por esse segmento do Catolicismo têm repercutido não apenas no seu contexto original, mas tem chegado às residências e igrejas evangélicas, produzindo, em alguns desses espaços, grande discussão a respeito de ser lícito ou não os evangélicos cantarem músicas católicas em seus cultos.

O meu problema com as músicas católicas está na ideologia que as originou. Acredito que a música é um poderoso instrumento para qualquer segmento religioso expressar a sua ideologia e atrair a atenção; afinal, a música cativa e, muitas vezes, é o veículo mais fácil para se chegar às massas e convencê-las ou, no mínimo, gerar interesse pelo que aquele segmento prega. Os cantores católicos populares usam a música para expressar a sua fé católica. Eles não deixaram de ser católicos, nem de crer e defender os dogmas da sua religião que, diga-se de passagem, na maioria dos casos ferem absurdamente o conteúdo da fé genuinamente bíblica. Aliás, alguns desses dogmas estão lá; ainda que sutilmente, mas estão. Por exemplo, no mesmo CD em que o Rosa de Saron canta: “Mesmo na tempestade, mesmo que se agite o mar, te louvo, te louvo de verdade”, há uma canção que diz: “Não chore, linda menina, mas clame sem cessar, Ave, Ave, Ave Maria”. A melodia e as letras das músicas simplesmente camuflam aquilo que está no coração católico dos cantores. Além do mais, uma vez que essas canções foram produzidas, gravadas e divulgadas por bandas reconhecidamente católicas, elas representam o segmento no qual foram geradas; portanto, quando os evangélicos as cantam em seus cultos, automaticamente faz-se uma associação com catolicismo, o que, em muitos casos, gera uma idéia de que não há nada que faça distinção entre catolicismo e o protestantismo. Neste caso, o problema, em minha opinião, está nessa associação, que pode causar confusão na mente de alguém que, estando no romanismo, não perceba as diferenças e acredite que está tudo bem com o seu catolicismo.

Infelizmente, muitas pessoas acreditam que não devemos ressaltar as diferenças entre o catolicismo e a fé protestante, por isso buscam no repertório católico, novas opções de “louvor” para suas igrejas. Mas eu acredito que, em tempos como os nossos, as diferenças entre esses segmentos precisam ser evidenciadas, para que cada um busque apresentar suas razões de fé e deixar evidente a sua identidade. Não vejo nenhum benefício no sincretismo religioso, nem no ecumenismo, ainda que ele pareça belo e piedoso.

Minha opinião é de que nem tudo que fala de Deus realmente vem de Deus. Jesus disse: “Nem todo o que me diz: Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus” (Mt 7. 21). O diabo também chamou Jesus de “Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5. 7). Nem tudo que tem aparência de piedade é, de fato, agradável a Deus, pois, no fim, nega o seu poder (2 Tm 3. 5). O povo de Israel, por se aproximar dos cultos falsos, desconsiderando as diferenças que lhe afastavam deles, abandonou o verdadeiro culto a Deus e embrenhou-se num paganismo que culminou por destruir a nação. Incorporar elementos contaminados pela idolatria no culto a Deus sempre trouxe grandes prejuízos ao povo de Deus, nunca a bênção.

Acredito que os evangélicos podem louvar a Deus sem precisar recorrer ao que os católicos produzem debaixo de suas crenças idólatras. Ainda que algumas dessas canções falem daquilo que nós também cremos, não há razão para nos associarmos a uma fé que nega alguns princípios básicos da fé bíblica. Sou contra qualquer tipo de aproximação com o catolicismo romano, como sou contra qualquer aproximação com qualquer religião ou crença que negue a centralidade das Escrituras e o senhorio de Cristo. Assim como não justifica cantar músicas espíritas nos cultos evangélicos, embora algumas delas falem de Jesus ou de Deus, não justifica cantar músicas que venham do catolicismo. Como já havia afirmado aqui mesmo neste blog, creio que as diferenças que nos separam do catolicismo são maiores que qualquer aparência que, supostamente, nos une. Não há razão para sermos associados ao catolicismo romano se ele insiste em não voltar às Escrituras.

O grande problema é que a maioria das igrejas evangélicas prefere copiar o modismo em matéria de música do que voltar-se para a Bíblia e produzir seus cânticos baseados nos ensinamentos revelados por Deus. Preferem copiar o que todo mundo está fazendo sem obedecer critérios elementares como o bom senso e a verdade. Em muitos casos, não importa se é verdade ou não o que se está cantando; o importante é se está na moda. São critérios assim que permitem às igrejas evangélicas cantar aquilo que, muitas vezes, nega a sua própria fé. E é por isso que o catolicismo romano tem feito tanto sucesso atualmente no meio evangélico.

domingo, 22 de novembro de 2009

AS UTOPIAS PROTESTANTES E O SEU MST.

A sigla MST é muito conhecida dos brasileiros. Ela serve para designar o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Serra, ou, simplesmente, Movimento dos Sem Terra. Criado há 25 anos, o MST espalha terror pelo país afora sob a égide da luta pela reforma agrária. A verdade é que a sigla não só consagrou um movimento, como também institucionalizou a revolta armada em nome de mais uma utopia nacionalista.

As utopias estão presentes no nosso quotidiano. É por causa delas que surgem tantos movimentos; e é ainda, por causa delas, que tantos desses movimentos sobrevivem, ainda que em estado vegetativo, prolongando o sofrimento de quem neles acredita.

O protestantismo também tem as suas utopias, por isso ele abriga tantos movimentos estranhos e insólitos. Ninguém há que seja capaz de negar a presença dessas utopias e os seus efeitos na vida e na prática protestantes. É até possível dizer que, quem olha a igreja protestante, estando de fora dela, a vê a partir dessas utopias e, às vezes, a confunde com elas. Talvez por isso muitos confundam o ser protestante com o ser pentecostal, por exemplo, como se fossem, necessariamente, a mesma coisa. O pentecostalismo, na verdade, é só mais um tipo de utopia protestante, um movimento que sobrevive dentro do protestantismo, mas não o define, nem o identifica plenamente.

Há muitos outros movimentos dentro do protestantismo brasileiro, mas quero destacar neste artigo apenas um, que é, na realidade, um movimento crescente que, firmado na sua utopia própria, ganha força e gera preocupações. Esse movimento é o nosso MST, o que chamo de Movimento dos Sem Teologia.

O MST protestante é guiado pela mesma utopia que impulsionou o movimento pietista que se ergueu dentro do luteranismo no final do século XVII. O pietismo, cujo principal representante foi Phillipp Jakob Spener, defendia um tipo de renovação da piedade com base em um retorno subjetivo e individual ao estudo da Bíblia e à oração. Spener defendia um tipo de cristianismo baseado na experiência subjetiva, onde a piedade prática substituísse a ortodoxia e a inquirição teológica. A utopia pietista foi apresentada na principal obra de Spener, publicada em 1675, intitulada Pia Desideria. Entre as principais propostas para restaurar a vida da igreja, estavam: o conhecimento do Cristianismo deve ser alcançado através da prática; ao invés de ataques aos incrédulos e heterodoxos dar um tratamento simpático e gentil a eles; e uma reorganização da formação teológica das universidades, dando maior destaque à vida devocional.

A utopia pietista é o embrião do movimento pentecostal e neo-pentecostal. E é esta utopia que orienta o MST protestante. É a partir dessa utopia que muitos têm defendido na igreja protestante que não precisamos de teologia; que precisamos de experiências pessoais, não de investigações teológicas, afinal, acreditam, teologia e piedade se anulam. Para o MST protestante, teólogos são cientistas frios e indiferentes, e a intelectualidade é um empecilho à fé. Assim, antiintelectualidade é visto como sinônimo de espiritualidade, e as experiências subjetivas, são superiores a qualquer conceito teológico. De acordo com a cartilha do MST protestante, não devemos perder tempo com debates teológicos enquanto “vidas estão indo para o inferno”. O MST protestante é como o “grupo de Cristo”, os espirituais de Corinto.

O Movimento dos Sem Teologia caminha em sintonia com a utopia pietista ainda no que se refere ao tratamento com os incrédulos. Ao invés de questionar e debater temas divergentes, o MST protestante se aproxima da heterodoxia, convergindo em torno de supostas coincidências. Assim, as fronteiras teológicas são substituídas pela linha imaginária do amor acima das diferenças. Como conseqüência disso, o protestantismo perde aos poucos uma das características que lhe são mais caras e que lhe denominam: a arte do protesto, a graça do inconformismo.

O MST protestante condena a teologia como se não defendesse a sua própria teologia. É, simplesmente, impossível viver sem teologia. Há teologia nas nossas pregações, nos nossos cânticos, e até mesmo nas nossas orações, porque teologia nada mais é do que a maneira como interpretamos a revelação divina e expressamos essa interpretação.
Teologia é a busca pelo conhecimento de Deus, baseado na sua revelação pessoal. A Teologia não é a revelação divina, mas “na genuína teologia encontramos a revelação de Deus e a sua interpretação pelo ser humano”, como bem escreveu o Rev. Herminsten Maia Pereira Costa no texto “Ortodoxia Protestante: um desafio à Teologia e à Piedade”. Na teologia o homem busca, através do Espírito, a compreensão da revelação. O Rev. Herminsten ainda diz que “a teologia é uma reflexão interpretativa e sistematizada da Palavra de Deus; a sua fidedignidade está sempre no mesmo nível da sua fidedignidade à Escritura”. Por isso é possível associar teologia com piedade, afinal, não haverá verdadeira teologia sem apego e reverência à revelação divina.
O MST protestante espalha o terror no seio da Igreja alardeando um tipo de piedade sem reflexão e avessa aos debates, sem considerar que os debates teológicos, muitas vezes, nos livram dos erros e nos fazem enxergar com mais clareza a verdade. Foram os debates teológicos que abriram os olhos da igreja em épocas passadas e a fizeram redescobrir os tesouros da fé escondidos sob os escombros de uma religiosidade meramente experiencial. Não há como negar que grandes debates teológicos do passado fizeram a Igreja redescobrir as Escrituras e voltar-se à fé apostólica. A reflexão teológica, longe de atrofiar a Igreja, a fortalece no sentido de revigorar as suas convicções e reforçar a sua crença.
O protestantismo tem sido grandemente influenciado pelo Movimento dos Sem Teologia. A utopia que impulsiona esse movimento tem trazido à Igreja grandes prejuízos, e tem minado a resistência da Igreja contra inverdades que rondam seus muros. A ausência de preocupação com a teologia faz da Igreja um porto agradável para todo tipo de utopias que, acolhidas por uma estranha piedade, ancoram suas teses e desembarcam suas sutilezas, apresentando um tipo de fé avessa aos valores historicamente defendidos pela convicção protestante.
É necessário que a Igreja do nosso tempo recorde seu passado e reaprenda a arte do saber teológico. A teologia ancorada na Palavra de Deus, longe de perverter e esfriar a fé, fortalece as convicções dos crentes e lhes torna ainda mais reverentes e piedosos. Afinal, se a verdadeira Teologia é conhecimento da revelação de Deus, não haverá como essa teologia produzir frieza e indiferença. Ao contrário, produzirá uma fé firme e consciente, e uma Igreja madura e capaz de resistir às utopias.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SOCIEDADES INTERNAS NA IPB: É MOMENTO DE REFLETIR.

As Sociedades Internas sempre foram a cara da IPB. Ao longo da história, elas identificaram e marcaram a identidade presbiteriana e diferenciaram a nossa denominação das demais. As Sociedades Internas sempre expressaram a força da organização presbiteriana e reforçaram a federalidade da nossa denominação.

Muitas igrejas Presbiterianas nasceram através do protagonismo das Sociedades Internas. Muitos outros grandes projetos evangelísticos, missionários e sociais surgiram a partir do dinamismo de jovens, homens e mulheres organizados nas Sociedades Internas, e comprometidos com o evangelho e a denominação. Além disto, muitos dos nossos líderes - pastores, presbíteros e diáconos - descobriram sua vocação em reuniões e Congressos de Sociedades Internas. As Federações e Confederações reuniram centenas de jovens em Congressos por todo o país. E nas Igrejas locais, os Conjuntos musicais formados por crianças e jovens abrilhantaram os cultos com cânticos singelos e vozes bem afinadas. Mas hoje a realidade é bem diferente na maioria das Igrejas Presbiterianas por todo o país.

A situação enfrentada pelas Sociedades Internas na IPB é deveras preocupante. Há vozes na denominação que defendem a extinção das Sociedades Internas e a substituição por outros modelos. Há até Igrejas que já implantaram outros sistemas em detrimento das Sociedades. Há outras igrejas em que as sociedades acabaram e nenhum modelo novo foi implantado. E há muitas igrejas onde as Sociedades Internas caminham em petição de miséria. O que fazer? Há solução para as Sociedades Internas na Igreja Presbiteriana? Elas deveriam ser extintas? Eis alguns questionamentos que merecem respostas.

Em primeiro lugar, quero deixar a minha opinião de que não creio que as Sociedades Internas devam ser extintas. Elas são muito úteis às igrejas locais e à IPB. O modelo é excelente. A grande questão é que o modelo precisa ser revitalizado, e o objetivo original precisa ser resgatado. A história mostra que as Sociedades Internas nasceram do desejo de crentes em diversas regiões do país de se organizarem para trabalharem na obra de Deus. Assim nasceu a SAF, por exemplo: “As senhoras, membros da Igreja Presbiteriana de Pernambuco, reuniram-se em uma Associação Evangélica, com o fim de estudos bíblicos e arrecadação de fundos para auxílio aos necessitados e à Igreja e, no dia 11 de novembro de 1884, houve a reunião de instalação desta Associação, tendo sido eleita Presidente a Sra. Carolina Smith. Temos aí a primeira SAF. Após esta muitas outras foram sendo organizadas e hoje temos Sociedades Auxiliadoras Femininas em todos os rincões de nosso país”.

Uma história parecida pode ser contada no surgimento da UMP: “Em 1936 os jovens das centenas de igrejas presbiterianas do Brasil já estavam se organizando sob vários nomes, como por exemplo: Sociedade de Jovens, Sociedade Heróis da Fé, Sociedade Esforço Cristão, etc. O Supremo Concílio então recomendou que os pastores dessem todo o apoio para que os jovens se organizassem em cada igreja sob o nome de União da Mocidade Presbiteriana (UMP)”.

A UPA nasceu em 1967, a partir da visão de uma irmã, membro da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, que “sempre chegando mais cedo aos cultos, percebeu a necessidade de se trabalhar com o grande número de adolescentes que também chegavam mais cedo e que não possuíam nenhuma atividade direcionada. Preocupada com essa questão, Dona Dorcas solicitou o uso de um dos salões da igreja, para se reunir com os adolescentes”. A preocupação da irmã era ensinar aos adolescentes oportunidades para evangelismo pessoal, gincanas bíblicas, louvor, teatro entre outras atividades.

Percebe-se que as Sociedades Internas nasceram a partir de inquietações de membros de igrejas, inflamados pelo desejo de contribuir com a obra de Deus nas igrejas locais. As Sociedades Internas nasceram não como um fim em si mesmas, mas com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento das igrejas locais. Isto fica evidente quando o Manuel Unificado das Sociedades Internas define os objetivos específicos dessas Sociedades: a) cooperar com a Igreja, como parte integrante da mesma, nos seus objetivos de servir a Deus e ao próximo em todas as suas atividades, promovendo a plena integração de seus membros; b) incentivar o cultivo sadio de atividades espirituais, evangelísticas, missionárias, culturais, artísticas, sociais e desportivas; c) promover uma salutar convivência com os outros Departamentos e Organizações da IPB e também com denominações evangélicas fraternas.

O que percebemos em nossos dias é um esfriamento preocupante de muitos membros das igrejas locais em relação às Sociedades Internas, e um desinteresse abismal de muitos líderes e Concílios em discutir sobre esse assunto. Estamos assistindo passivos à desconstrução do modelo de Sociedades Internas sem oferecer qualquer resistência no sentido de fortalecer ou revitalizar o sistema. A engrenagem formada pelas Sociedades Internas está parando, e junto com ela, a IPB. É necessário criar mecanismos que fortaleçam as Sociedades Internas na nossa Igreja. É urgente que a IPB faça uma reflexão sobre esse assunto e planeje ações intensas a fim de reerguermos as Sociedades Internas. Sou contra a extinção delas, mas não creio que o modelo, do jeito que está, dure muito tempo. É preciso pensar e agir rápido.

As Sociedades Internas são importantes instrumentos para a formação de lideranças nas Igrejas locais. É nas reuniões e Congressos que muitos jovens aprendem a liderar. Nas Sociedades Internas podemos ensinar nossos jovens não apenas como presidir reuniões, mas como liderar equipes. Crianças, adolescentes e jovens treinados pelas Sociedades Internas terão condições de ser os futuros líderes das igrejas locais. Muitas Igrejas Presbiterianas pelo Brasil não têm homens para assumirem o presbiterato e o diaconato. Isto é resultado de falta de preparo de novas lideranças nas Sociedades Internas.

As Sociedades Internas são importantes instrumentos para evangelização. Através das Sociedades Internas a IPB pode alcançar estrategicamente diversos segmentos da sociedade. Crianças evangelizando crianças, adolescentes evangelizando adolescentes, e o mesmo acontecendo com jovens, homens e mulheres. É necessário haver organização e equipamento para tais ações, por isso os Conselhos precisam trabalhar com planejamento.

As Sociedades Internas são importantes ferramentas para desenvolvimento de dons e ministérios. Não há necessidade de substituir as Sociedades Internas pelo modelo de ministérios, pois cada crente pode, na Sociedade Interna correspondente à sua faixa etária, desenvolver o seu dom. É necessário haver mecanismos para se descobrir esses dons e oportunidades para que sejam desenvolvidos.

Creio que a discussão em torno das Sociedades Internas é muito mais abrangente. Por isso acredito que a IPB não pode continuar passiva em relação ao tema. Precisamos de um olhar consciente na nossa realidade e, ao mesmo tempo, uma ação estratégica a fim de se descobrir fórmulas para se revitalizar as Sociedades Internas. Que tenhamos coragem de começar a agir. Acredito que será muito difícil manter uma estrutura gigantesca como a IPB, se continuarmos perdendo a força das Sociedades Internas. “Mãos ao trabalho, todos!”