sexta-feira, 10 de setembro de 2010

QUANDO A RELIGIÃO É UMA AMEAÇA

A religião é uma prática essencialmente humana. Faz parte da constituição humana a necessidade de buscar no transcendente as respostas aos questionamentos mais elementares sobre sua existência. Por isso, a religião, como disse João Calvino, é um fato universal. Disse o reformador em suas Institutas: “Nós, sem discussão alguma, afirmamos que os homens têm um certo sentimento da divindade em si mesmos; e isto, por um instinto natural”. E ainda, citando Cícero, diz: “Não há povo tão bárbaro, não há gente tão brutal e selvagem, que não tenha arraigada em si a convicção de que há um Deus. E, ainda, os que em algumas coisas parecem quase não se diferenciarem dos animais, conservam sempre neles certa semente de religião” (Institutas, Livro I, capítulo III).

A religião aproxima pessoas, oferece respostas a diversos dramas humanos, conforta e estimula hábitos e práticas salutares. Praticamente todas as religiões têm como princípio fundamental o amor ao próximo e o bem comum. Entretanto, há ocasiões em que a religião pode ser uma ameaça ao próprio ser humano.

A religião é uma ameaça quando é um fim em si; quando tenta ser, ela mesma, o caminho que conduz o homem pecador a Deus. O que liga o homem ao Criador não é a religião, mas o Filho único de Deus, que veio à terra para realizar esta tarefa, que somente Ele poderia realizar (Hb 9. 11 e 12).

A religião é uma ameaça quando se transforma em uma mera causa, querendo fazer prosélitos a qualquer custo para seus interesses. Quando isto acontece, fiéis são convertidos em soldados, dispostos a matar e morrer por um idealismo sem sentido e não é mais possível separar os fundamentos da religião das suas interpretações. Aí o que é salutar torna-se doentio, e o que é fundamento torna-se fundamentalismo cego. Ninguém deveria matar por uma religião, nem precisaria morrer por ela. Jesus nunca disse que deveríamos morrer pelo Cristianismo, mas afirmou que deveríamos estar dispostos a morrer por Ele. Morrer pelo Cristianismo é fanatismo, mas morrer por Cristo é lucro (Fp 1. 21). Morrer em nome da fé em Cristo só se justifica quando há uma ameaça real; matar em nome dessa mesma fé, entretanto, não é nem opção nem mandamento.

A religião é uma ameaça quando tenta substituir a democracia por uma teocracia auto-intitulada. Em toda a história humana, o único estado realmente teocrático já existente foi o de Israel no Antigo Testamento. Deus era o Rei daquela nação (1 Sm 12. 12). Ele mesmo fundou aquela nação e a governou. As leis que regulavam toda a vida nacional eram ditadas e administradas pelo próprio Deus. Mas isto cessou quando Israel deixou de ser o povo exclusivo de Deus. Hoje não há governo teocrático nem deve esperar-se que haja. O máximo a que se chega hoje é a governos “religiocráticos”. Mas os resultados não têm sido benéficos. A religião é uma ameaça quando quer assumir o controle do estado. E quando isso ocorre ela é capaz de tantas atrocidades quanto os governos anti-religiosos o são. Os Talibãs e as Inquisições podem provar isto.

A religião é uma ameaça quando se intromete em assuntos que não lhe dizem respeito, quando se coloca no centro de discussões que não são, necessariamente, matérias de fé, ou quando extrapola os limites da consciência individual e pretende assenhorear-se da razão. A religião se torna uma ameaça quando assume a perigosa missão de, por si mesma e por seus ideais, salvar o mundo; quando admite que ser religioso é sinônimo de ser salvo.

O risco de tornar-se uma ameaça é igual a todas as religiões, inclusive ao Cristianismo. O Cristianismo não é um fim em si mesmo. Seu alvo é Cristo e sua mensagem de salvação. Só há salvação no Cristianismo porque nele está Cristo. Sem Cristo não há salvação nem haveria Cristianismo de verdade. Se o Cristianismo cumprir sua missão de anunciar a Redenção realizada no Calvário na pessoa de Jesus, seu papel estará cumprido. O objetivo do Cristianismo não é salvar o mundo, mas anunciar ao mundo o Salvador. Se o Cristianismo revogar esta missão para tornar-se uma mera causa política ou idealista, ele se transformará em mais uma ameaça tão horrenda quanto as ameaças a que ele se opõe.

Agnaldo Silva Mariano

5 comentários:

Wagner Lemos disse...

Ótimo texto! Parabéns pela qualidade do mesmo...

Josival disse...

Deus abençoe ainda mais, textos assim nos fazem refretir sobre realidades como a abordada aqui.

Josué disse...

Belo post, benção!

Mas na verdade agora não estou passando para opinar sobre a postagem, mas deixar o convite para se possivel dar uma olhada no meu blog, criado recentemente...o blog é novo, e eu conto com sua participação.

Obrigado pela atenção e muita paz.

Segue as essências/

www.verdade87.blogspot.com

disse...

Muito bom seu artigo, Adorei. Graça e paz!

Adilson J T Toledo disse...

bom artigo meu irmão